Dezenas de galos de
briga são apreendidos pela polícia. Vários são sacrificados. Mais ou menos na
mesma época, no dia 15 de julho deste ano, cinco mulheres são assassinadas em
uma casa de prostituição. E o caso que recebe mais indignação? Isso mesmo, os galos. O sacrifício deles
gerou textos inflamados denunciando a crueldade, enquanto a morte das mulheres
foi sempre noticiada de forma fria e distante.
Não que sacrificar
animais por motivos como “não ter espaço para mantê-los” seja minimamente
justificável. Mas e as mulheres, humanas como eu e você? Não mereciam ao menos
o nosso olhar? É verdade que a notícia dos galos não teve uma repercussão tão
grande assim, mas cinco mulheres mortas de uma vez é uma verdadeira chacina.
E ainda assim passou
despercebida.
Penso que se o crime tivesse acontecido no Sudeste talvez
houvesse repercussão maior, já que parece que o Nordeste nunca importa, nem
sequer para a mídia local. Mas isso é apenas um talvez e um tanto quanto improvável.
Porque no fundo além de mulheres, eram
prostitutas. Porque lembrar mais delas do que de animais? Nessa sociedade putas
e galos de briga não passam de coisas descartáveis da mesma categoria: carne a
serviço do prazer dos homens (cisgêneros e heterossexuais, ao menos no segundo
caso). E como mera carne do tipo mais desprezado – além de mulheres e
prostitutas, pelo que pude ver numas poucas fotos elas eram negras – elas não
merecem atenção. Não dessa mídia.
É engraçado isso de
achar que prostitutas são uma categoria menor da humanidade. Elas trabalham pra
viver, como a maioria dos seres humanos faz, fez ou fará algum dia. Talvez
porque o trabalho e sexo com várias pessoas diferentes e boas mulheres são de
um homem só. Boas mulheres vivem em função do seu homem e cozinham e varrem e parem
e criam os filhos quase sós, mesmo que também trabalhem fora. “Boas moças”
também são carne pros homens. A sociedade tem mais consideração por elas só
para que nunca questionem.
É por tudo isso que
essa chacina merecia o nosso grito indignado. Eram humanas, eram mulheres.
Talvez tenham sido mortas apenas por serem mulheres. Elas mereciam que nos
lembrássemos. Que soubéssemos quem eram: Patrícia, Cássia, Maria Dayane, Maria
da Conceição, Antônia. Cito os nomes para que não sejam esquecidos. Mas as vidas
foram interrompidas. As histórias são obscuras. Ninguém quis saber quem eram
elas na realidade. Que sonhos tinham? A quem amavam? Não sabemos. Nem delas nem
de milhares de mulheres que se mata e se esquece pelo mundo afora. Porque no
fundo, nos veem todas como carne. E só.
Cecília Tavares

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