sábado, 26 de setembro de 2015

Carne






            Dezenas de galos de briga são apreendidos pela polícia. Vários são sacrificados. Mais ou menos na mesma época, no dia 15 de julho deste ano, cinco mulheres são assassinadas em uma casa de prostituição. E o caso que recebe mais indignação?  Isso mesmo, os galos. O sacrifício deles gerou textos inflamados denunciando a crueldade, enquanto a morte das mulheres foi sempre noticiada de forma fria e distante.
            Não que sacrificar animais por motivos como “não ter espaço para mantê-los” seja minimamente justificável. Mas e as mulheres, humanas como eu e você? Não mereciam ao menos o nosso olhar? É verdade que a notícia dos galos não teve uma repercussão tão grande assim, mas cinco mulheres mortas de uma vez é uma verdadeira chacina.
            E ainda assim passou despercebida.
            Penso que se  o crime tivesse acontecido no Sudeste talvez houvesse repercussão maior, já que parece que o Nordeste nunca importa, nem sequer para a mídia local. Mas isso é apenas um talvez e  um tanto quanto improvável.
             Porque no fundo além de mulheres, eram prostitutas. Porque lembrar mais delas do que de animais? Nessa sociedade putas e galos de briga não passam de coisas descartáveis da mesma categoria: carne a serviço do prazer dos homens (cisgêneros e heterossexuais, ao menos no segundo caso). E como mera carne do tipo mais desprezado – além de mulheres e prostitutas, pelo que pude ver numas poucas fotos elas eram negras – elas não merecem atenção. Não dessa mídia.
            É engraçado isso de achar que prostitutas são uma categoria menor da humanidade. Elas trabalham pra viver, como a maioria dos seres humanos faz, fez ou fará algum dia. Talvez porque o trabalho e sexo com várias pessoas diferentes e boas mulheres são de um homem só. Boas mulheres vivem em função do seu homem e cozinham e varrem e parem e criam os filhos quase sós, mesmo que também trabalhem fora. “Boas moças” também são carne pros homens. A sociedade tem mais consideração por elas só para que nunca questionem.
            É por tudo isso que essa chacina merecia o nosso grito indignado. Eram humanas, eram mulheres. Talvez tenham sido mortas apenas por serem mulheres. Elas mereciam que nos lembrássemos. Que soubéssemos quem eram: Patrícia, Cássia, Maria Dayane, Maria da Conceição, Antônia. Cito os nomes para que não sejam esquecidos. Mas as vidas foram interrompidas. As histórias são obscuras. Ninguém quis saber quem eram elas na realidade. Que sonhos tinham? A quem amavam? Não sabemos. Nem delas nem de milhares de mulheres que se mata e se esquece pelo mundo afora. Porque no fundo, nos veem todas como carne. E só. 
            Cecília Tavares

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